Preparem-se e agendem-se, porque de hoje até 1 de agosto volta a Nova York uma das obras mais instigantes, extasiantes e imperdíveis que eu já vivenciei nas minhas últimas três décadas. The Clock, do artista e compositor Christian Marclay, é um filme que dura 24 horas completas, tem centenas (talvez milhares) de personagens, e não possui exatamente história ou sequência linear. A narrativa, no entanto, existe, e surpreende porque transforma o tempo no personagem principal do filme. Em essência, The Clock é um relógio cinematográfico, já que o horário exibido na tela sincroniza com o horário do mundo real, dos nossos próprios relógios.
O filme é resultado de dois anos de uma pesquisa monumental de Marclay em clássicos do cinema à procura de cenas em que a câmera ou enquadra um relógio ou mostra os personagens verbalizando as horas. A obra é espetacular não só pela extensão da pesquisa, mas também pela magnitude da montagem, que dá sentido a uma narrativa que não tem sentido algum. The Clock é acima de tudo uma reflexão sobre a vida e a morte, e sobre a perda de um tempo que se torna irrecuperável numa sociedade cada vez mais obcecada pela contagem das horas. Na neurótica e acelerada Nova York, onde a primeira desculpa pros fracassos da vida está relacionada à falta de tempo, assistir ao tempo correr frente aos olhos é quase um sacrilégio.
Quem tiver coragem - e tempo! - pode passar um dia completo assistindo ao The Clock. O Lincoln Center exibe o filme ininterruptamente nos finais de semana, de sexta-feira às 8h, até domingo às 22h. Programem-se mesmo, porque as filas serão longas e de algumas horas de espera. A entrada é gratuita.