Esse post já está caindo de maduro, não só porque a exposição com trabalhos recentes da Cindy Sherman na Metro Pictures encerra hoje, 09 de junho, mas porque a retrospectiva dela no MoMA também chega ao fim em dois dias, na próxima segunda, 11. Porém, seria um sacrilégio da minha parte deixar qualquer uma das duas mostras passar sem alguns míseros comentários. Então aí vai:
Cindy Sherman, na Metro Pictures, apresenta a artista vestida de Chanel alta-costura em cenários vulcânicos e inóspitos. Numa referência direta à pintura romântica do século XIX, especialmente às obras de Friedrich, Turner e Constable, Sherman inverte o papel da natureza que, ao invés de servir como fonte de êxtase e inspiração sublime, se transforma num background artificial e fora de contexto. Agigantada em primeiro plano, a artista posa com um olhar frio e fixo, quase insano, que transmite a incongruência da presença de suas personagens em paisagens tão sinistras.
Sherman criou essa série inteiramente no photoshop. Sem maquiagem, ela se fotografou contra um fundo verde, vestindo tanto figurinos originais criados por Coco Chanel na década de 20, quanto contemporâneos, das coleções de Karl Lagerfeld. A artista então aplicou os retratos a fotografias tiradas na Islândia e Ilha de Capri em 2010. Sherman manipulou as composições digitalmente, dando às imagens finais traços de pintura. Apesar de coesa, a série não tem a expressividade de seus trabalhos anteriores. Justamente por posicionar as personagens em ambientes surreais, a artista elimina o referencial que estabeleceria o estereótipo dessas mulheres, e permitiria nossa identificação com suas histórias. Desconectadas e desvairadas num mundo fantástico, elas não nos permitem sentir empatia, tampouco desconforto.
Na metade dos anos 70, época em que Sherman começou a fotografar, seu trabalho serviu de prenúncio para as teorias pós-modernistas e pós-estruturalistas em arte. Suas séries de arquétipos femininos não possuem título, deixando que o espectador interprete livremente cada um dos papeis que ela personifica. Suas construções são propositalmente falsas, e por vezes, exageradamente artificiais; porém, são ao mesmo tempo críveis, com referências arraigadas no real. Ao definir os cenários, maquiagens, figurinos, penteados e poses, Sherman não só cria o envoltório que define a identidade de cada personalidade, como nos convence a acreditar na narrativa de cada uma delas. E apesar de também ser responsável por apertar o botão da câmera, Sherman não faz auto-retratos. Na essência, suas fotografias são espelhos, retratos de outras mulheres, cujos clichês todos temos um pouco.
Por ser temática, a retrospectiva do MoMA falha ao separar algumas das séries da artista. No entanto, ela é magnífica ao reconstruir cronologicamente o amadurecimento tanto artístico quanto físico de Sherman. Seu lugar entre os artistas mais importantes da arte contemporânea é evidente e merecido.
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