1. Estava com infladas expectativas pra conferir a segunda edição da trienal do New Museum. Entitulada The Ungovernables, a exposição prometia agrupar artistas da mesma geração que a minha, que, nascida no final dos anos 70, acompanhou a dissolução de regimes ditatoriais e colonialistas, e participou da reconfiguração do mundo em economias globalizadas. Uma geração que se viu livre pra ser anárquica e contestatória sem a sombra da repressão no calcanhar, ao mesmo tempo em que passou a experimentar novas possibilidades de discurso, resistência, e principalmente consumo. 

    Além disso, os “ingovernáveis” viriam em sua grande maioria de países à margem dos principais centros de arte ocidental, representando práticas artísticas que deixariam transparecer nos trabalhos traços singulares de cada cultura. Dentre os mais de 50 artistas, a mostra prometia exibir apenas quatro norte-americanos. Configurava-se alentadora.  

    Mas disso tudo, muito pouco aconteceu. Nos cinco andares do New Museum, o que eu encontrei foram obras vazias de subversão e rasas de experimentação. Lamentavelmente, a rebeldia pareceu domesticada e uniforme, se perdendo em exemplos que pareciam todos saídos da mesma escola. Referências à Arte Conceitual e ao Minimalismo, como fez a canadense Julia Dault, se revelaram óbvias e genéricas. Em Untitled 19 (3:00pm - 8:30pm, February 4, 2012) e Untitled 20 (1:00pm - 5:30pm, February 5, 2012), Dault amontoou chapas de fórmica e plexiglas coloridas contra a parede. O dia e a hora indicados nos títulos aludem ao tempo consumido pela artista na execução de cada peça. Cinquenta anos atrás, as duas obras teriam garantido à Dault espaço privilegiado entre Carl Andre e Donal Judd. Hoje, elas me fizeram perder a paciência. 

    Apesar da inconsistência, nem tudo foi perdido. O video O Século, dos brasileiros Cinthia Marcelle e Tiago Mata Machado, expandiu com perspicácia a gestualidade do expressionismo abstrato ao fazer do movimento o principal suporte da composição. O processo pictórico, que com Jackson Pollock e William de Kooning era apenas sugerido nos rastros impressos no canvas, se tornou evidente na obra de Marcelle e Machado. Mesmo tendo sido coreografado, o vídeo sugere o instantâneo, o improvisado, o caótico. O Século é também um dos poucos trabalhos que fazem referência direta à rebeldia dos ingovernáveis. Os pneus, cadeiras, baldes, capacetes e potes que voam janela afora e se espatifam no chão invocam conflitos urbanos e guerras civis. O áudio amplia a revolta, e os detritos que compõe a abstração final ilustram o resultado da resistência. 

    No fim das contas, saí do museu questionando o formato e a validade da trienal. Se na essência ela serve para exibir o presente de quem será futuro na arte contemporânea, o horizonte que propõe o New Museum me pareceu por demais desolador pra ser almejado.

    (Fotos: minhas e do site do New Museum)

     
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