1. À primeira vista leves e coloridas, as composições da artista islândica Thordis Adalsteinsdottir são na verdade bizarras e surreais. Seus personagens habitam cenas domésticas em momentos íntimos e por vezes desconcertantes. Exibindo uma certa ironia, eles flutuam em texturas delicadas e complexas, que a artista realiza diretamente no canvas, sem estudos ou desenhos prévios. Call On Me With Your Softness fica em cartaz na Stux Gallery até 20 de outubro. 

     
  2. O diálogo entre fotografia e pintura é uma constante no trabalho de Gerhard Richter. Em Painting 2012, ele cria impressões a partir de uma pintura sua, Abstract Painting 724-4, de 1990. Em essência, Richter remove finas linhas pictóricas dessa obra, e, com a ajuda de um software, reconstrói milhares de padrões de cores através de um processo intricado de multiplicação, repetição e espelhamento de sequências. O resultado são composições coloridas e geométricas que, vistas em grupo, também funcionam como sequência, uma representando a versão alterada da outra.

    A crítica do New York Times Karen Rosenberg, porém, acerta em cheio ao afirmar que o melhor da experiência é o efeito óptico que causam as linhas à medida em que nos aproximamos ou afastamos das obras. De resto, elas são surpreendentemente enfadonhas e descaracterizadas. Ao contrário do processo empregado nessa série, eu ainda prefiro Richter explorando o caminho inverso, da fotografia para a pintura.

    Painting 2012 fica em cartaz na Marian Goodman Gallery só até amanhã, 13 de outubro.

     
  3. Discovering Columbus é o projeto mais recente do artista japonês Tatzu Nishi, que dessa vez construiu uma sala de estar pra hospedar a estátua de Cristóvão Colombo numa das interseções mais movimentadas de Nova York. Elevada por uma estrutura de andaimes de cerca de 23 metros, a instalação permite ao público ficar frente a frente com o monumento criado pelo escultor italiano Gaetano Russo que, desde sua inauguração em 1892, só é visto do chão, em perspectiva, ou de prédios vizinhos, à distância.

    Nishi imaginou o centenário Cristóvão um objeto de decoração pomposo e massivo, posando com grandiloquência na mesa de centro da sala, ao redor da qual as visitas assistem à televisão, lêem jornal, ou batem um papo nos sofás. Parte de uma série de trabalhos que aproximam o público de monumentos urbanos inacessíveis, Discovering Columbus pretende um contato intimista e surreal com a simbólica estátua de Cristóvão Colombo. Porém, o volume de visitantes e a falta de informação sobre as obras tanto de Nishi quanto de Russo fazem com que a experiência seja mais turística do que introspectiva. Na falta de um texto explicativo, só me restou conferir a decoração, posar pra foto e contemplar a magnífica vista da Broadway em frente ao Central Park. 

    Pra descobrir o que que o Colombo tem é preciso reservar ingressos com antecedência no site da Public Art Fund. Os tickets são gratuitos, e a visitação acontece até o dia 18 de novembro. Na sequência, conservadores entrarão na sala e darão um belo trato no seu Cristóvão.

     
  4. Fim de semana suculento pra arquitetos e curiosos que, como eu, têm fascínio por interiores de prédios históricos e casas alheias. Hoje e amanha acontece o Open House New York, um evento que celebra a arquitetura e o design da big apple abrindo as portas de residências públicas e privadas normalmente de restrito acesso. A programação é diversa e imensa, e oferece workshops, conversas e visitas guiadas com arquitetos e designers nos cinco boroughs de Nova York. Chance rara pra se visitar o loft que abriga uma coleção de móveis Eames, a casa onde cresceu o presidente Theodore Roosevelt, ou o estúdio do artista Edward Hopper. 

     
  5. Desde 1968, ano em que abriu suas portas, o Studio Museum no Harlem oferece uma prestigiosa e concorrida residência artística a jovens artistas de afro-descendência. São três contemplados por ano, que, além de onze meses de estúdio grátis e uma bolsa de 20 mil dólares, recebem um impulso magnífico na carreira. O programa culmina com uma exposição dos trabalhos desenvolvidos durante todo o Artist in Residence

    Nessa edição de 2011-2012, fontes primárias servem de ponto de partida para as práticas artísticas de Njideka Akunyili, Meleko Mokgosi e Xaviera Simmons. Em Primary Sources,os três exploram documentos, fotografias, objetos, recortes de jornais e revistas em diferentes mídias, como fotografia, pintura, instalação e performance. Akunyili, Mokgosi e Simmons abordam tanto histórias pessoais quanto coletivas, constantemente referenciando o passado colonial que determinou suas origens. Destaque para as colagens espetaculares de Akunyili, que corajosamente expõe a intimidade de seu casamento com um caucasiano e discute abertamente questões de identidade, diferenças culturais e aceitação social.  

    Primary Sources fica em cartaz no Studio Museum em Harlem até 21 de outubro. Para a edição de 2012-2013 do Artist in Residence os artistas também já foram selecionados.  

     
  6. Três artistas distintos, trabalhando em três mídias diferentes: desenho, pintura e fotografia. Porém, entre os três ressoa uma familiaridade não só midiática, mas também temática, que os alinhava entre representações mundanas e descartáveis. Toba Khedoori, James Welling, e Al Taylor extraem formas de cordas, arames, paredes, e objetos domésticos. Khedoori faz pinturas que beiram fotografias, enquanto Welling faz fotografias que se transvestem de pinturas. Taylor, por sua vez, alterna mídias durante seu processo criativo. Expostos lado a lado, percebe-se que as esculturas servem de inspiração para os desenhos. Por fim, a bidimensionalidade dos planos volta a unir os três artistas. No entanto, a galeria David Zwirner, ao invés de congregá-los num único show, os reservou espaços individuais em múltiplas salas. São também três exposições diferentes.

    Até 27 de outubro.

     
  7. A nova instalação site-specific do artista suíço Thomas Hirschhorn consegue ser ao mesmo cômica e sinistra. Concordia, Concordia é a reconstituição em escala disneylândica do interior do Costa Concórdia, navio que naufragou em janeiro desse ano no litoral italiano. Utilizando materiais baratos e descartáveis, Hirschhorn imagina a destruição do casino que, segundo ele, representa tanto o fracasso quanto o prenúncio de um desastre ainda maior da nossa sociedade de consumo.

    Pra quem, assim como eu, já navegou em alto-mar, Concordia, Concordia é também a materialização do mais terrível dos pesadelos. A monumentalidade e o ultrarealismo kitsch da instalação de Hirschhorn me transportaram de volta a situações de emergência que vivi a bordo, em que a dúvida entre salvar ou sobreviver é limítrofe e constantemente testada. Sorri de nervosa pra não me imaginar em meio ao caos, sem saída, soterrada pelos escombros. 

    Concordia, Concordia fica em cartaz na Gladstone Gallery até 20 de outubro. 

     
  8. Populares na metade do século dezenove, ambrótipos são fotografias capturadas diretamente em placas de vidro, que, ao invés de formarem negativos, resultam em imagens positivas e únicas. Reinterpretados pelo fotógrafo Michael Kolster, os ambrótipos são emoldurados como pequenas caixas, tornando-se objetos recipientes de refinadas naturezas-mortas e detalhadas abstrações. Alguns desses trabalhos estão em exibição na mostra Still Life: Photographs on Glass, quefica em cartaz somente até amanhã, 24 de agosto, na Schroeder Romero & Shredder. 

     
  9. Bianca Casady nasceu no Havaí e nunca passou por uma escola de arte. Na verdade, ela deixou o colégio aos 16 anos e tudo o que aprendeu de dança, música e arte foi por conta própria. Hoje, além da meio-folk-meio-freak CocoRosie, banda que formou com sua irmã em 2003 em Paris, Casady desenvolve trabalhos em desenho, colagem, fotografia, vídeo e instalação.

    Em Daisy Chainem cartaz na Cheim & Read até 8 de setembro, a artista discute  principalmente questões de gênero e sexualidade, transformando corpos femininos em masculinos e vice-versa. Em sua maioria, são personagens cujas posições dos corpos confrontam o espectador, às vezes o seduzindo, às vezes o desafiando. Além disso, as conotações sexuais a que o título infere são evidentes não só no encadeamento simbólico das imagens, mas também no volume quase compulsivo de trabalhos que se associam uns aos outros por formas e temas. Atuando em múltiplas mídias, a imaginação de Casady se revela explosiva e insaciável. 

     
  10. Sai amanhã, 17 de agosto, o veredicto do julgamento das três integrantes do coletivo feminista e banda punk Pussy Riot, que em fevereiro desse ano protestou contra a direta ligação de Vladimir Putin com a Igreja ortodoxa russa. Por causa dessa manifestação/performance hardcore e peituda dentro de uma catedral de Moscou, as ativistas russas estão presas desde março e podem ser condenadas a sete anos de prisão. Elas são acusadas de “hooliganismo motivado por ódio religioso.”

    Em solidariedade a Pussy Riot, defesa à liberdade de expressão e repúdio ao julgamento injusto e absurdo a que as três integrantes estão sendo submetidas, acontece hoje uma leitura pública de declarações e textos do grupo no Liberty Hall, no Ace Hotel NY. A mobilização começa às 19h30min e tem entrada gratuita. 

    Free Pussy Riot! 

     
  11. Durante o verão as galerias de arte por aqui desaceleram o ritmo e organizam exposições de duração extendida, com muitas coletivas de artistas. Numa volta rápida por Chelsea descobri algumas bem bacanas, que valem a pernada mesmo abaixo de tanto calor.

    A Jenkins Johnson Gallery exibe Photography Now, mostra dedicada exclusivamente à fotografia contemporânea. São nove fotógrafos, assinando quase cinquenta trabalhos, na maioria retratos. Destaque para a série de desenhos sobre pequenas impressões antigas de Francesca Sundsten; para os interiores encenados de Julia Fullerton-Batten e Timotheus Tomicek, e para os retratos de crianças em seus quartos abarrotados e quase-monocromáticos de Jeongmee Yoon. Photography Now fica em cartaz até 31 de agosto. 

     
  12. Yayoi Kusama é sem sombra de dúvidas uma das artistas mais prolíficas da arte contemporânea. Aos 83 anos, ela continua pintando às dezenas, e pelas próprias mãos, com ajuda reduzida de alguns assistentes. No entanto, o buzz em torno de sua mais recente exposição no Whitney Museum me parece excessivamente superestimado. Yayoi Kusama, em cartaz até 30 de setembro, não é uma retrospectiva (como eu imaginava), mas sim uma mostra breve que, em apenas um andar do museu, examina pontos-chave da carreira da artista japonesa.

    Apesar da inegável relevância da produção de Kusama ainda hoje, seus trabalhos das décadas de 60 e 90 são os que mais chamam a atenção pela iventividade, beleza e minúcia. Em ambos os períodos, a artista se dedica a pintar obsessivamente pequenas bolinhas, ou polka dots, com tamanha perfeição que, aos desavisados, os quadros parecem impressões. Sua compulsão pela pintura se desenvolve da tentativa de curar distúrbios psicológicos que apareceram ainda na infância. Desde o início, Kusama fala abertamente de suas obsessões, medos e alucinações, que ela optou por sublimar no próprio processo criativo. É como se a arte a salvasse da morte, ela admite.

    É também nos anos 60 que Kusama participa de happenings e performances em Nova York e passa a construir instalações compostas de múltiplas fontes de luz em ambientes espelhados. Uma dessas instalações, chamada Fireflies on the Water, está exposta no Whitney. Andentrá-la é como vivenciar a síntese do trabalho de Kusama, onde o lúdico se mistura com elementos naturais, e como numa alucinação repleta de pontos coloridos, vemos nossos próprios narcisos multiplicados no espelho. Dessa forma, Fireflies on the Water indiretamentereflete mais uma das obsessões de Kusama, a de ser famosa e ter seu trabalho reconhecido. 

    Quem passar por Nova York nos próximos dois meses vai encontrar Kusama não confinada ao museu, mas espalhada por toda a cidade, em vitrines, parques e até prédios. É esse o buzz a que eu me referia no início do texto, e pelo qual eu torço o nariz. Com apoio e financiamento massivos da Louis Vuitton e da toda-poderosa Gagosian Gallery, Kusama virou garota-propaganda da própria marca. Talvez à procura dessa fama indiscriminada, a artista tem, nos últimos anos, explorado essencialmente o viés comercial de sua arte. Enfatizando o apelo pop de suas bolinhas, Kusama dolorosamente esvazia de significado uma prática que nos anos 60 era carregada de transcendência pessoal. 


     
  13. Rineke Dijkstra vence a própria timidez fotografando pessoas. A cada novo trabalho, a artista holandesa interpela estranhos para posar em frente a sua câmera. São personagens na maioria jovens, entre a idade ingrata da adolescência e o início incerto da adultez, que refletem no olhar e na posição corporal a mesma inibição com que Dijkstra os encara. 

    Os projetos de Dijkstra são investidas quase-antropológicas, de imersão integral e longa duração, das quais emergem séries temáticas ou temporais. Alguns dos trabalhos mais marcantes registram adolescentes na praia, mulheres nos instantes imediatos após o parto, ou toureiros ensangüentados ao final de um embate. Desde o final dos anos 90, a fotógrafa tem explorado também recursos audio-visuais, compondo retratos em movimento de jovens clubbers ingleses. 

    Dijkstra desevolve ainda séries em que ela fotografa a mesma pessoa por extendidos períodos de tempo, normalmente permitindo intervalos de meses ou anos entre cada imagem. As transformações são marcantes, e se revelam não só físicas, o que é inerente à idade, mas especialmente culturais e comportamentais. Utilizando-se da justeza do retrato fotográfico formal, a artista expõe o descompasso do corpo que se ajusta a novas dimensões, e da personalidade que descobre o mundo e a si mesma. As fotografias de Dijkstra são cruas e por vezes pungentes, mas também sensíveis e delicadas, profundos testamentos de humanidade, que atestam magnânimas o desconforto que é viver. 

    O Guggenheim exibe Rineke Dijkstra: A Retrospective até 08 de outubro. 

     
  14. A ecologicamente correta, porém temperamental, Wendy ocupa parte do pátio do MoMA PS1, em Long Island City. Wendy é a instalação vencedora do prêmio Young Architects Program, que o MoMA oferece a jovens arquitetos há 13 anos. O duo de Nova York Matthias Hollwich and Marc Kushner superou o desafio de criar um projeto que desse conta de questões ambientais, como reciclagem e sustentabilidade. Além disso, era preciso que a instalação oferecesse sombra, água, e assentos, já que sua principal função é proporcionar áreas de descanso durante o Warm Up, série de festas eletrônicas que acontece nas tardes de sábado do PS1, entre julho e setembro. Mas apesar das boas intenções, Wendy é mais simpática de longe do que de perto. Além do espaço para sentar ser mínimo, um de seus “braços” esguicha jatos d’água a cada cinco minutos, literalmente dando um banho gelado em quem está embaixo. Em dias quentes talvez seja divertido, mas nesse último sábado encoberto e ameno, o pessoal não parecia muito entusiasmado ao ser pego de surpresa. 

     
  15. (Re)Print é a segunda curadoria da minha colega de mestrado Allison Crawbuck na Hendershot Gallery. A Allison pesquisa e escreve sobre street art, e para essa exposição ela convidou alguns dos principais artistas da cena mundial para que contribuíssem com gravuras e stencils. A mostra tem trabalhos de Clown Soldier, Gaia, Gilf!, Know Hope, Icy & Sot, Imminent Disaster, Other, Paul Insect, Labrona, entre tantos outros. Porém, mesmo sem saber seus nomes, é possível indentificá-los por seus traços, já que quase todos também espalharam suas marcas pelas ruas de Nova York. O bacana é que, além das prints, alguns dos artistas participantes criaram trabalhos site-specific nas paredes do subsolo da galeria. Infelizmente, assim como acontece na rua, os murais serão apagados com o término da exposição. Quem estiver pela cidade no verão corre pra ver, porque (Re)Print encerra em menos de um mês, no dia 15 de agosto.