Fatigues é uma série de desenhos monumentais que a britânica Tacita Dean realizou para a Documenta de Kassel no ano passado. Há quase dez anos distante dessa mídia, Dean voltou a usar giz branco em quadro negro para narrar a descida caudalosa das águas do Rio Kabul pelas montanhas do Afeganistão. Na visão de Dean, a natureza, é sublime, imponente e abundante. Os rastros vigorosos de giz no quadro escuro transmitem o poder exuberante da enxurrada, que, incansável, varre os obstáculos do caminho.
Em Fatigues, portanto, não há fadiga. O trabalho é uma metáfora - quase óbvia, é verdade, mas não menos energizante - das fadigas da vida, que tão comumente nos arrastam à força correnteza abaixo. No caso de Dean, o trabalho alude também a uniformes militares, que em inglês são chamados de fatigues, e à exaustão sentida após o encerramento de sua exposição no Turbine Hall da Tate Modern em 2011, em Londres.
Hoje é o último dia de Fatigues na Marian Goodman Gallery.
À procura da pintura perfeita, Matisse repetia os mesmos temas, as mesmas formas, as mesmas composições. Experimentava com as pinceladas, os traços, os movimentos e as cores. Começava, interrompia, renunciava, seguia em frente, recomeçava, reciclava, insistia. Processo, progresso, propósito.
In Search of True Painting, a magnífica exposição no Metropolitan Museum, desvenda o artista fauvista em ativo desassossego com sua própria prática, constantemente buscando ao longo de sua carreira o aprimoramento da pintura na medida da tentativa e erro. É uma faceta de Matisse que eu desconhecia, essa do eterno aprendiz, que não temia olhar para mestres como Cézanne, Signac e Monet em busca de ensinamentos e inspiração. Em trabalhos similares, justapostos em duplas, trios ou em grupos, In Search of True Painting revela o caminho vibrante e original que incluiu Matisse no panteão da pintura modernista.
In Search of True Painting fica em cartaz no Met Museum até 17 de março.
É difícil categorizar o trabalho de Richard Artschwager que, desde os anos 60, tem criado arte que transita entre o Pop, o Minimalismo e a Arte Conceitual. Partindo de temas populares e materiais banais, como fórmica e Celotex, Artschwager transveste esculturas em mobiliário, mobiliário em pinturas, pinturas em protuberâncias de parede. O que se espera ser bidimensional, o artista faz ocupar o espaço a partir de texturas e ilusionismo. Inversamente, a tridimensionalidade é achatada em cantos e superfícies planas e improváveis do espaço.
Vista em conjunto na recente retrospectiva no Whitney Museum, a obra de Artschwager se revela astuta, espirituosa e intrigante. Entender a inutilidade desses objetos que se disfarçam de arte exige uma aproximação mais direta e mais aberta do espectador. Exclamation Point (Chartreuse), de 2008, um ponto de exclamação amarelo gigante que encerra a mostra atesta que arte, para Artschwager, não passa de uma grande interjeição, o resultado da nossa reação de supresa e maravilhamento frente à ela.
A retrospectiva de Artschwager fica em cartaz no Whitney só até domingo, 03 de fevereiro.
Se eu estivesse em Nova York, e não mezzo de férias no Brasil, me descabelando pra escrever minha dissertação de mestrado, eu iria conferir a exposição da fotógrafa Julie Blackmon, na Robert Mann Gallery. Julie Blackmon: Day Tripping acaba no sábado (12/01), bem antes da minha volta, então, além de descabelada, eu tô morrendo de ciúmes do meu amigo Dulphe Pinheiro Machado, que foi, curtiu, e me passou a dica. Valeu, queridón!
Cindy Sherman, Philip Glass, Kara Walker, Lucas Samaras, Laurie Anderson e Lou Reed são alguns dos artistas retratados por Chuck Close na sua mais recente mostra na Pace Gallery. Além das características pinturas monumentais, que Close compõe a partir da dissolução de imagens fotográficas em partículas únicas e abstratas, o artista exibe pela primeira vez retratos fotorrealistas também em tapeçarias e aquarelas. Na Pace Gallery da 25th Street até 22 de dezembro.
Preciosidades em extinção, as impressões de Richard Misrach datam da década de 90, quando os laboratórios ainda se iluminavam de vermelho e cheiravam a químico. São paisagens monumentais e sublimes, que surpreendem os olhos especialmente pela magnífica escala de cores e pureza quase invisível de grãos. Com o foco preso no infinito, Misrach capta lugares desertos e inóspitos, porém estranhamente marcados por resquícios humanos. The Desert Cantos, em cartaz na galeria Robert Mann só até amanhã,apresenta intervenções que foram abandonadas e provavelmente esquecidas. Ao mesmo tempo em que reclamam nossa interferência danosa na natureza, também sugerem a beleza dos objetos que acabam sendo incorporados à paisagem; no entanto, a estetização formal reverbera com mais força em relação à crítica ao impacto ambiental.
À primeira vista leves e coloridas, as composições da artista islândica Thordis Adalsteinsdottir são na verdade bizarras e surreais. Seus personagens habitam cenas domésticas em momentos íntimos e por vezes desconcertantes. Exibindo uma certa ironia, eles flutuam em texturas delicadas e complexas, que a artista realiza diretamente no canvas, sem estudos ou desenhos prévios. Call On Me With Your Softness fica em cartaz na Stux Gallery até 20 de outubro.
O diálogo entre fotografia e pintura é uma constante no trabalho de Gerhard Richter. Em Painting 2012, ele cria impressões a partir de uma pintura sua, Abstract Painting 724-4, de 1990. Em essência, Richter remove finas linhas pictóricas dessa obra, e, com a ajuda de um software, reconstrói milhares de padrões de cores através de um processo intricado de multiplicação, repetição e espelhamento de sequências. O resultado são composições coloridas e geométricas que, vistas em grupo, também funcionam como sequência, uma representando a versão alterada da outra.
A crítica do New York Times Karen Rosenberg, porém, acerta em cheio ao afirmar que o melhor da experiência é o efeito óptico que causam as linhas à medida em que nos aproximamos ou afastamos das obras. De resto, elas são surpreendentemente enfadonhas e descaracterizadas. Ao contrário do processo empregado nessa série, eu ainda prefiro Richter explorando o caminho inverso, da fotografia para a pintura.
Painting 2012 fica em cartaz na Marian Goodman Gallery só até amanhã, 13 de outubro.
Discovering Columbus é o projeto mais recente do artista japonês Tatzu Nishi, que dessa vez construiu uma sala de estar pra hospedar a estátua de Cristóvão Colombo numa das interseções mais movimentadas de Nova York. Elevada por uma estrutura de andaimes de cerca de 23 metros, a instalação permite ao público ficar frente a frente com o monumento criado pelo escultor italiano Gaetano Russo que, desde sua inauguração em 1892, só é visto do chão, em perspectiva, ou de prédios vizinhos, à distância.
Nishi imaginou o centenário Cristóvão um objeto de decoração pomposo e massivo, posando com grandiloquência na mesa de centro da sala, ao redor da qual as visitas assistem à televisão, lêem jornal, ou batem um papo nos sofás. Parte de uma série de trabalhos que aproximam o público de monumentos urbanos inacessíveis, Discovering Columbus pretende um contato intimista e surreal com a simbólica estátua de Cristóvão Colombo. Porém, o volume de visitantes e a falta de informação sobre as obras tanto de Nishi quanto de Russo fazem com que a experiência seja mais turística do que introspectiva. Na falta de um texto explicativo, só me restou conferir a decoração, posar pra foto e contemplar a magnífica vista da Broadway em frente ao Central Park.
Pra descobrir o que que o Colombo tem é preciso reservar ingressos com antecedência no site da Public Art Fund. Os tickets são gratuitos, e a visitação acontece até o dia 18 de novembro. Na sequência, conservadores entrarão na sala e darão um belo trato no seu Cristóvão.
Fim de semana suculento pra arquitetos e curiosos que, como eu, têm fascínio por interiores de prédios históricos e casas alheias. Hoje e amanha acontece o Open House New York, um evento que celebra a arquitetura e o design da big apple abrindo as portas de residências públicas e privadas normalmente de restrito acesso. A programação é diversa e imensa, e oferece workshops, conversas e visitas guiadas com arquitetos e designers nos cinco boroughs de Nova York. Chance rara pra se visitar o loft que abriga uma coleção de móveis Eames, a casa onde cresceu o presidente Theodore Roosevelt, ou o estúdio do artista Edward Hopper.
Desde 1968, ano em que abriu suas portas, o Studio Museum no Harlem oferece uma prestigiosa e concorrida residência artística a jovens artistas de afro-descendência. São três contemplados por ano, que, além de onze meses de estúdio grátis e uma bolsa de 20 mil dólares, recebem um impulso magnífico na carreira. O programa culmina com uma exposição dos trabalhos desenvolvidos durante todo o Artist in Residence.
Nessa edição de 2011-2012, fontes primárias servem de ponto de partida para as práticas artísticas de Njideka Akunyili, Meleko Mokgosi e Xaviera Simmons. Em Primary Sources,os três exploram documentos, fotografias, objetos, recortes de jornais e revistas em diferentes mídias, como fotografia, pintura, instalação e performance. Akunyili, Mokgosi e Simmons abordam tanto histórias pessoais quanto coletivas, constantemente referenciando o passado colonial que determinou suas origens. Destaque para as colagens espetaculares de Akunyili, que corajosamente expõe a intimidade de seu casamento com um caucasiano e discute abertamente questões de identidade, diferenças culturais e aceitação social.
Primary Sources fica em cartaz no Studio Museum em Harlem até 21 de outubro. Para a edição de 2012-2013 do Artist in Residence os artistas também já foram selecionados.
Três artistas distintos, trabalhando em três mídias diferentes: desenho, pintura e fotografia. Porém, entre os três ressoa uma familiaridade não só midiática, mas também temática, que os alinhava entre representações mundanas e descartáveis. Toba Khedoori, James Welling, e Al Taylor extraem formas de cordas, arames, paredes, e objetos domésticos. Khedoori faz pinturas que beiram fotografias, enquanto Welling faz fotografias que se transvestem de pinturas. Taylor, por sua vez, alterna mídias durante seu processo criativo. Expostos lado a lado, percebe-se que as esculturas servem de inspiração para os desenhos. Por fim, a bidimensionalidade dos planos volta a unir os três artistas. No entanto, a galeria David Zwirner, ao invés de congregá-los num único show, os reservou espaços individuais em múltiplas salas. São também três exposições diferentes.
Até 27 de outubro.
A nova instalação site-specific do artista suíço Thomas Hirschhorn consegue ser ao mesmo cômica e sinistra. Concordia, Concordia é a reconstituição em escala disneylândica do interior do Costa Concórdia, navio que naufragou em janeiro desse ano no litoral italiano. Utilizando materiais baratos e descartáveis, Hirschhorn imagina a destruição do casino que, segundo ele, representa tanto o fracasso quanto o prenúncio de um desastre ainda maior da nossa sociedade de consumo.
Pra quem, assim como eu, já navegou em alto-mar, Concordia, Concordia é também a materialização do mais terrível dos pesadelos. A monumentalidade e o ultrarealismo kitsch da instalação de Hirschhorn me transportaram de volta a situações de emergência que vivi a bordo, em que a dúvida entre salvar ou sobreviver é limítrofe e constantemente testada. Sorri de nervosa pra não me imaginar em meio ao caos, sem saída, soterrada pelos escombros.
Concordia, Concordia fica em cartaz na Gladstone Gallery até 20 de outubro.
Populares na metade do século dezenove, ambrótipos são fotografias capturadas diretamente em placas de vidro, que, ao invés de formarem negativos, resultam em imagens positivas e únicas. Reinterpretados pelo fotógrafo Michael Kolster, os ambrótipos são emoldurados como pequenas caixas, tornando-se objetos recipientes de refinadas naturezas-mortas e detalhadas abstrações. Alguns desses trabalhos estão em exibição na mostra Still Life: Photographs on Glass, quefica em cartaz somente até amanhã, 24 de agosto, na Schroeder Romero & Shredder.
Bianca Casady nasceu no Havaí e nunca passou por uma escola de arte. Na verdade, ela deixou o colégio aos 16 anos e tudo o que aprendeu de dança, música e arte foi por conta própria. Hoje, além da meio-folk-meio-freak CocoRosie, banda que formou com sua irmã em 2003 em Paris, Casady desenvolve trabalhos em desenho, colagem, fotografia, vídeo e instalação.
Em Daisy Chain, em cartaz na Cheim & Read até 8 de setembro, a artista discute principalmente questões de gênero e sexualidade, transformando corpos femininos em masculinos e vice-versa. Em sua maioria, são personagens cujas posições dos corpos confrontam o espectador, às vezes o seduzindo, às vezes o desafiando. Além disso, as conotações sexuais a que o título infere são evidentes não só no encadeamento simbólico das imagens, mas também no volume quase compulsivo de trabalhos que se associam uns aos outros por formas e temas. Atuando em múltiplas mídias, a imaginação de Casady se revela explosiva e insaciável.
